No Brasil a ditadura em 1968 chegava ao auge com o temível AI nº 5. A partir daí os algozes tinham carta branca para fazerem o que bem entendiam. Havia torturadores de todos os matizes. Alguns até com bíblias na mão. Faziam o preso político ler alguns trechos mosaicos e depois o pau comia. E não havia ninguém para socorrer o pobre diabo. A Constituição era como ainda é, e sempre foi apenas letras mortas, inexpressivas e sem nenhuma atividade real, servindo apenas aos interesses escusos de pessoas socialmente privilegiadas. Residíamos eu, minha mãe e meus irmãos no bairro da Luz, perto de um Batalhão de Polícia, o “Tobias de Aguiar”. Subindo pela rua João Teodoro e atravessando a Avenida Tiradentes havia uma prisão. Não se podia passar pelas calçadas porque elas eram bloqueadas. Com as crianças ou menores não havia problema. E minhas irmãs menores que por lá passavam, quando iam para a escola, ouviam gritos estarrecedores.
As saídas de viaturas, carros brucutus e alguns tanques repletos de policiais da tropa de choque indicavam mais uma passeata de estudantes, (os únicos heróis deste país naqueles fatídicos tempos). E isto ocorria quase que diariamente. Os problemas políticos misturavam-se com a luta pela sobrevivência. Os empregos eram cada vez mais raros. A polícia prendia quem portasse Carteira profissional sem registro de emprego. Os empresários deitavam e rolavam sobre a infâmia vivida pelos trabalhadores, que possuíam os mesmos direitos de uma barata. Bem por isto ainda hoje tem quem aprecie saudosamente a ditadura. Claro, o capital ganhava tanto dinheiro que os bancos mal podiam guardar e o capital ainda financiava os torturadores. Tive um patrão que foi assassinado porque se negou a pagar.
Participei de muitas passeatas ao longo de cinco ou seis anos. Fui paralisando após a institucionalização da violência que foi o AI 5, pelo fato dos companheiros de lutas pacíficas desaparecerem nos subterrâneos da luta armada. Fiquei na dúvida: ou partia para a liberdade que a luta armada nos propiciava, ou ficava na escravidão de uma falsa cidadania. Mas, em razão de minha mãe ser viúva e com filhos menores fiz minha opção correta, pois ou estaria morto e desaparecido sem deixar vestígios e minha família também sofreria, posto que a ditadura além de cruel, corrupta e assassina também matava ou torturava as pessoas que eram parentes dos libertadores. Contudo, ainda participei das muitas passeatas que aconteciam. Numa delas, liderada pelo estudante Wladimir Palmeira, um gênio na arte do discurso relâmpago. Foi no Largo do Paissandu quando ouvíamos os principais lideres, que mostravam a camisa ensangüentada de um estudante morto na véspera. Palavras de ordem se repetiam pela multidão de mais ou menos vinte mil pessoas. Todos jovens.
A polícia chegou. Havia policiais de choque e cavalarianos. A tropa de choque subia a São João e os cavalarianos desciam em nossa direção. Na praça já tinha uns duzentos policiais com cães pastores nos observando. Algumas moças choravam. Palavras de ânimo eram proferidas aqui e ali, mas o choque era inevitável, pois estávamos cercados. Tremi nas bases, mas mantive o moral elevado. Com paus e pedras nas mãos fiquei com um grupo que tentava furar o bloqueio policial no rumo da praça da República. Conseguimos passar e fugimos numa correria louca. Alguns policiais tentaram nos pegar, mas foram ficando para trás. Quem ficou no Largo do Paissandu teve de lutar e boa parcela dos estudantes foi presa. Alguns ficaram aleijados de tanto apanhar. Este era e ainda é o Brasil digno de um Hitler, de um Stalin, de um Pinochet: países repletos de injustiças de cabo a rabo. As indenizações pagas aos que sofreram os abusos e torturas são de um valor semelhante àqueles dos porões da ditadura: tirânico, opressivo e esmolento. No entanto, não é assim quando se trata de políticos no poder, quando as indenizações assumem proporções de loterias, enriquecendo mais ainda a atual e rica politicalha. Às vezes chego a duvidar do futuro de nosso país, quando faço uma análise de nossa História. Entra década e sai década e nós continuamos com uma cidadania fajuta, sem futuro, sem político capaz de assumir o Brasil, o Estado, as Prefeituras com a devida seriedade. Todos eles dão a impressão de que querem se eleger para roubar. É esta impressão que fica e vai ficando cada década mais forte nesta verdadeira fantasia carnavalesca de cidadão brasileiro que vamos vivendo. Vivendo sem nenhum futuro.
Jeovah de Moura Nunes
escritor e jornalista, Autor do livro: “Memórias de um Camelô” entre outros livros.
Jeovah de Moura Nunes
escritor e jornalista, Autor do livro: “Memórias de um Camelô” entre outros livros.
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