sábado, 2 de janeiro de 2010

SÓCRATES: MAIS DO QUE UM FILÓSOFO


No ano 463 antes de Cristo nascia em Atenas um garoto que iria mudar o mundo em seus conceitos humanos. Além de filósofo Sócrates foi escultor, militar, um bom guerreiro em campos de batalha, estudou geometria e física. Tudo isto autodidaticamente. Não se limitou em seus estudos, não se fixou em escolas; não compôs nenhuma ciência; não escreveu nenhum livro. O seu modo de ensinar, sem ser professor, era conversando e dialogando com as pessoas que buscavam a cultura. O método era claro: interrogar ironicamente e preparar uma dialética, que levava o interessado em aprender a compreender sem muito raciocínio as informações daquele homem que já nascera mestre. Era fácil localizar o mestre possuidor de respostas para quaisquer perguntas. Estava quase sempre em assembléias e festas populares e nos ginásios. Tudo servia de pretexto para ensinar e sua vida era um verdadeiro apostolado da ciência.
A filosofia de Sócrates chegou até nossos dias através dos pergaminhos onde constavam os “Diálogos de Platão” e dos deixados por Xenofonte. Nos seus agravos combatendo a falsa retórica com de seus gracejos quase sempre satíricos e cheio de sarcasmos, levou-o a ganhar inimigos. Três de seus discípulos: Anito, Mélito e Lícon, a pretexto de vingança por se sentirem ofendidos, acusaram o mestre de impiedoso nas palavras, claro que não passando tal acusação de pretexto já do conhecimento das autoridades. Diante de seus juízes Sócrates manteve uma atitude altiva e digna, rogando como penalidade que fosse condenado a viver no Pritaneu às expensas do Estado. O Pritaneu era o edifício habitado pelos pritanes. Estabelecimento fundado em favor dos que mereceram da pátria alguns favores. São mais ou menos como nossos políticos brasileiros que recebem muitos favores mesmo após sua inútil vida política.
Condenado a beber a cicuta Sócrates manteve impassível e até quase sorriso diante dos juízes. Xantipa, sua esposa, com um gênio diferente protestou veementemente alegando uma farsa, o que era verdade. Conhecida pelo seu irascível gênio a mulher do filósofo rodou à baiana e quase derramou a cicuta nas mãos do carrasco. Mas, Xantipa tinha um grande amor pelo marido e chorou quando Sócrates brindou e bebeu o veneno dos que desejavam a sua morte.
Sócrates ao contrário dos filósofos anteriores e naturalistas pregou como objeto da filosofia o próprio homem, ou uma interpretação refletida do procedimento humano e das regras que a ele presidem. O mestre Sócrates foi o criador da ciência moral e humana. Talvez tenha sido sem a percepção da humanidade, o precursor de Jesus, que nasceria 400 anos depois dentro dos parâmetros da evangelização e não da ciência humana e moral pregada constantemente pelo filósofo. A verdade é que todos os homens que nascem para mudar o mundo são efetivamente assassinados pelo Estado, ou a mando deste, porque evidentemente os mandatários não querem mudar o status ou a posição de conforto deles.
Nós, aqui no Brasil, vivemos numa semelhante situação onde a pobreza da maioria da população é uma evidência catastrófica, sem solução de continuidade, porque os ricos e poderosos insistem em preservar as condições da boa vida deles. Surgindo no Brasil um Sócrates deixa mais do que evidente o assassinato dessa personalidade, posto que a politicalha de plantão não permite a coexistência entre os ladrões dos cofres públicos e as palavras terríveis e mágicas do filósofo revoltado com as injustiças pendentes da suposta República. Uma República brasileira injusta já no seu nascedouro, quando se banhou no sangue dos pobres, chamados pelos republicanos injustamente de “jagunços”, somente porque eram morenos acaboclados, mulatos, quase negros e mesmo negros, revelando os caracteres físicos típicos do sertanejo nordestino. Euclides da Cunha escreveu: “Canudos não se rendeu. Exemplo único de toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, caiu no dia 5 de outubro de 1897, quando mataram os seus últimos defensores. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados”.
Posteriormente 300 mulheres que se renderam, acreditando que seriam poupadas, foram degoladas, juntamente com seus filhos pequenos. É, nossa República já nascera banhada em sangue e atualmente repleta de ladrões nos podres poderes. O quê diria Sócrates sobre isto? Acho que ele preferiria beber a cicuta novamente.

Jeovah de Moura Nunes
escritor e jornalista, Autor do romance “A cebola não dá rosas” entre outros livros.

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